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Dor no peito sem entupimento das artérias pode ter origem na microcirculação do coração

Condição é mais comum em mulheres e requer exames específicos para diagnóstico adequado

11/01/2026

Sentir dor no peito, realizar exames cardiológicos e receber a informação de que as artérias do coração estão “normais” não significa, necessariamente, que o problema não seja cardíaco. Um número expressivo de pacientes apresenta sintomas típicos de angina – dor ou aperto no peito causados pela falta de oxigênio no músculo cardíaco – mesmo sem obstruções aparentes nas grandes artérias coronárias. Nesses casos, a causa pode estar na microcirculação do coração, formada por vasos extremamente pequenos, invisíveis nos exames convencionais, mas fundamentais para a irrigação do miocárdio.

A angina surge quando o coração demanda mais oxigênio do que está recebendo. Tradicionalmente, essa condição está associada ao estreitamento das artérias coronárias por placas de gordura, conhecido como doença arterial coronariana. No entanto, estudos mostram que até metade dos pacientes submetidos à angiografia por dor no peito e sinais de isquemia – redução do fluxo sanguíneo – não apresenta entupimentos significativos. Esse quadro é denominado ANOCA, sigla em inglês para angina com artérias coronárias não obstrutivas.

“O cateterismo pode mostrar artérias sem bloqueios relevantes, mas isso não exclui sofrimento do coração”, explica o cardiologista intervencionista Sérgio Câmara. “Na angina microvascular, o problema está nos vasos muito pequenos, que não se dilatam adequadamente ou se contraem de forma exagerada, dificultando a chegada do sangue ao músculo cardíaco”, completa.

Sintomas que nem sempre são típicos

A angina microvascular ocorre com maior frequência em mulheres, especialmente após a menopausa, e ainda é pouco reconhecida. Muitas pacientes convivem por anos com dor no peito, cansaço e limitação para atividades do dia a dia sem um diagnóstico claro.
“É comum que esses sintomas sejam minimizados ou atribuídos apenas ao estresse ou à ansiedade, o que atrasa a investigação correta e o início do tratamento”, alerta o cardiologista.

Além disso, os sinais nem sempre seguem o padrão clássico. Enquanto a angina tradicional costuma ser descrita como pressão ou aperto no centro do peito, mulheres frequentemente relatam queimação nas costas, nos ombros, braços ou mandíbula. Em idosos, o desconforto pode surgir como dor nas costas, sensação de indigestão ou mal-estar abdominal, o que favorece confusões com problemas musculares ou gastrointestinais.

Espasmos temporários das artérias coronárias – quando o vaso se contrai de forma intensa e passageira – também podem causar dor no peito sem obstrução fixa. Outras condições, como anemia grave, hipertensão arterial não controlada e doenças das válvulas cardíacas, aumentam a demanda do coração e podem desencadear angina mesmo na ausência de entupimentos importantes.

Diagnóstico exige investigação funcional

Avanços recentes na cardiologia têm permitido uma avaliação mais precisa desses casos. Atualmente, durante o próprio cateterismo, é possível analisar não apenas a anatomia das artérias, mas também o funcionamento da circulação cardíaca.

Um dos exames utilizados é a reserva de fluxo coronário, que mede a capacidade dos vasos de aumentar o fluxo de sangue quando o coração é submetido a esforço. Valores reduzidos indicam disfunção da microcirculação. Outro método é o índice de resistência microvascular, que avalia a dificuldade de passagem do sangue pelos pequenos vasos. Testes com medicamentos também ajudam a identificar espasmos coronários.

“Essas avaliações permitem identificar a verdadeira causa da dor, seja microvascular, espástica ou outra. Isso muda completamente a estratégia de tratamento”, destaca Sérgio Câmara.

Tratamento e qualidade de vida

O tratamento da angina microvascular, na maioria dos casos, não envolve procedimentos como stents ou cirurgias, indicados quando há bloqueios importantes nas grandes artérias. A abordagem é baseada no controle rigoroso dos fatores de risco – como hipertensão, colesterol elevado, diabetes e tabagismo – além do uso de medicamentos que reduzem a sobrecarga do coração e melhoram a função dos vasos.

“Quando o mecanismo da dor é corretamente identificado, o paciente deixa de peregrinar por consultórios e passa a ter uma melhora real da qualidade de vida”, ressalta o cardiologista.

A principal orientação é não ignorar a dor no peito nem a considerar irrelevante diante de exames iniciais aparentemente normais. “A ausência de entupimento nas grandes artérias não significa ausência de doença. A microcirculação pode estar comprometida, e hoje dispomos de métodos seguros para investigar e tratar essa condição”, conclui Sérgio Câmara.