Há pouco tempo, ele estava praticamente recluso, preso às limitações impostas por um corpo de 310 quilos. Hoje, já 100 kg mais leve, ele cruza linhas de chegada, inspira milhões de pessoas nas redes sociais e carrega uma meta que vai muito além da estética: viver.
Natural do Recife, Júlio Mamute, empresário de 35 anos, decidiu transformar a própria dor em movimento. O processo não começou para gerar seguidores. Começou para salvar a própria vida. “Eu não quero mais ser emagrecido. Eu decidi emagrecer”, afirma.
Mudança de cenário
Há seis meses, Júlio deixou Recife e se mudou para São Paulo. A decisão não envolveu patrocínio nem convite profissional. Foi um movimento estratégico e emocional. Segundo ele, permanecer no mesmo ambiente significava conviver com antigos gatilhos da compulsão alimentar, estabelecida há 25 anos. “Quando o desafio é muito longo, você precisa renovar suas esperanças e fortalecer o compromisso.”
A mudança de cidade representou isso: sair da zona de conforto para continuar avançando em um processo que prevê a eliminação de 200 quilos ao todo – sem cirurgia bariátrica e sem uso de medicamentos injetáveis. Hoje, com cerca de 210 kg, ele já percorreu metade do caminho.
Júlio não romantiza o processo. Ele fala abertamente sobre as recaídas. “Tem dias que eu caio. A diferença é que hoje eu me levanto mais rápido.”
A compulsão alimentar, segundo ele, é o maior desafio. Mas o humor virou ferramenta. Ele brinca consigo mesmo, expõe os altos e baixos e transformou a vulnerabilidade em conexão. Em um ano, seu perfil ultrapassou milhões de seguidores somando diferentes plataformas.
“Eu comecei isso como um compromisso pessoal. Não para ser influenciador.”
O preconceito que não aparece nas medalhas
A jornada também é marcada por episódios de exclusão. Pessoas negociando para não sentar ao seu lado no avião. Motoristas de aplicativo cancelando corridas ao vê-lo. Dificuldades para renovar documentos por causa do peso. E recentemente, a negativa de uma academia que não permitiu que ele utilizasse a piscina para natação. “Se isso acontece comigo, pode acontecer com qualquer pessoa.”
Ele optou por não expor o estabelecimento, mas decidiu se posicionar. Para ele, saúde deve ser um espaço de acolhimento – não de exclusão.
São Silvestre: símbolo de liberdade
Desde a infância, Júlio assistia à Corrida Internacional de São Silvestre ao lado do pai, sempre no dia 31 de dezembro. Sonhava participar. A obesidade adiou esse desejo por anos. Em 2025, já morando em São Paulo, realizou o
sonho na edição centenária da prova – justamente no ano em que celebrava 100 kg eliminados.
Foram quase sete horas de percurso. A prova já estava oficialmente encerrada quando ele cruzou a linha de chegada. Mesmo assim, foi recebido sob aplausos. “Cada quilo que eu emagreço é mais liberdade.” Ele quase desistiu no meio do caminho. Mas continuou.
Transformar excesso em solidariedade
Se o alimento foi, durante anos, o que o aprisionou, hoje virou instrumento de transformação. A cada quilo eliminado, Júlio multiplica em doações. No último ano, foram mais de duas toneladas de alimentos destinadas a famílias em situação de vulnerabilidade. “A meta é repetir ou ampliar o volume este ano”, disse.
“Meu objetivo é viver. E cumprir os propósitos que Deus tiver para mim.”
O plano agora é chegar ao fim do ano com cerca de 120 quilos, correr novamente a São Silvestre e já ter data marcada para a cirurgia reparadora de pele – considerada por ele a etapa final do emagrecimento.
Ainda há 50% do caminho pela frente. Ainda existem dias difíceis. Ainda há desafios físicos e emocionais. Mas há algo que mudou definitivamente. Ele não espera mais ser salvo por métodos rápidos. Ele decidiu assumir o processo. E a cada passo, carrega milhões de pessoas junto.
Fotos: Divulgação