Nos siga e fale conosco

| Coluna

Da onda de calor ao corpo forte: o que a ciência mostra sobre treinamento na menopausa

02/04/2026

Por Elton Alves

A menopausa representa um marco fisiológico que impacta diretamente a saúde muscular, óssea e metabólica das mulheres. Ela é definida como a interrupção permanente da menstruação por 12 meses consecutivos, geralmente aos 45-55 anos, marcando o fim da fase reprodutiva. Hormonalmente, ocorre o declínio abrupto de estrogênio e progesterona pelos ovários, com elevação relativa de FSH e LH. Esse desequilíbrio causa sintomas como fogachos, insônia, ansiedade e alterações de humor, além de perdas progressivas de massa muscular (sarcopenia) e densidade óssea (osteoporose). Na composição corporal, há redistribuição de gordura: redução em glúteos e coxas, com acúmulo visceral (abdômen) e intramuscular, elevando riscos de síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

Dentro desse contexto, muitas dúvidas começam a surgir e raramente são discutidas com clareza. A primeira é se a mulher vai engordar obrigatoriamente. A ciência mostra que, na transição, há um aumento real de gordura total e visceral, enquanto a massa magra tende a cair, mesmo sem ganho exagerado de peso. Ou seja, a mulher pode sentir a diferença no corpo, mas não é porque ela não se segura, mas sim porque o corpo, com menos estrogênio, muda o padrão de armazenamento de gordura.

Treino de força e o que ninguém te conta: firmeza, sono e controle de sintomas

O treinamento de força é uma das melhores formas de cuidar da saúde durante a menopausa, ajudando a aliviar sintomas comuns e a manter o corpo forte. Pesquisas recentes mostram que ele melhora a força muscular, reduz desconfortos como fogachos e até ajuda na qualidade do sono, tudo de forma segura. A prática de exercícios físicos, especialmente força, ajuda a frear ou reverter esse cenário. A ciência demonstra que a recomposição corporal na menopausa só é robusta quando o foco está em preservar ou aumentar músculo ao mesmo tempo em que se reduz gordura.

Treino aeróbio: proteção cardiometabólica e bem estar

O treino aeróbio traz benefícios consistentes para mulheres na menopausa, principalmente na saúde cardiometabólica, no controle da pressão arterial, na melhora do perfil lipídico, da glicemia e na redução de risco cardiovascular. Há também indicação de melhora da qualidade de vida, da capacidade cardiorrespiratória e de desfechos psicológicos como depressão e ansiedade, embora o efeito sobre sintomas vasomotores, como ondas de calor, seja mais variável e nem sempre certo.

Em termos práticos, isso faz do aeróbio uma ferramenta importante para reduzir gordura visceral, manter energia e favorecer sono e bem estar geral. Ainda há maiores benefícios quando esses treinos são feitos de maneira estruturada e regular, sob supervisão, em comparação com treinos “aleatórios”.

Treinamento combinado: o método com melhores resultados

O treino combinado consiste na integração de força e aeróbio em um mesmo plano de exercício. Essa estratégia tende a melhorar simultaneamente composição corporal, capacidade cardiorrespiratória e força muscular, além de favorecer indicadores metabólicos e reduzir gordura visceral de maneira mais eficaz do que qualquer um dos métodos isolados.

Enquanto o aeróbio tende a ser mais eficaz para reduzir gordura e melhora cardiorrespiratório, o treino de força protege ou aumenta massa muscular e força. Quando combinados, criam um cenário de recomposição corporal robusta, com menos risco de perda de músculo, maior estabilidade, melhor função física e proteção cardiovascular e metabólica.

Sarcopenia e força: por que “não cair” é um objetivo estratégico

Com a queda de estrogênio, o corpo passa a perder músculo mais rápido, um processo conhecido como sarcopenia. Muitas mulheres só percebem isso quando sentem menos força ou mais cansaço para subir escada, por exemplo. Estudos com mulheres pre‑, peri‑ e pós‑menopausa mostram que a perda de massa muscular é real, mas não é um destino imutável: treino de força, mesmo com carga moderada a alta, melhora força, massa muscular e função física, independentemente da fase exata em que a mulher está.

Osteoporose, impacto e saúde óssea: por que o treino não é opcional

A queda de estrogênio também acelera a reabsorção óssea, aumentando o risco de osteoporose e fraturas. A boa notícia é que treino de força e atividades com impacto controlado (caminhar em ritmo, subir escadas, alguns saltos, exercícios com carga livre) ajudam a estimular a formação óssea e a preservar a densidade mineral.

Pesquisas recentes mostram que, mesmo em mulheres pós‑menopausa, programas de força de 12 a 24 semanas conseguem melhorar densidade mineral em alguns lugares e preservar o osso de forma melhor do que o sedentarismo.

Reposição hormonal: como ela se relaciona com saúde e treinamento

Para algumas mulheres, a reposição hormonal na menopausa (TRH/MHT) pode fazer parte da estratégia, sobretudo quando os sintomas são muito intensos ou o risco de osteoporose é elevado. A literatura científica indica que, quando bem indicada, essa terapia pode aliviar ondas de calor, reduzir a perda óssea e diminuir o risco de fraturas.

No entanto, a reposição não é indicada para todas: precisa ser individualizada, com avaliação de riscos cardiovasculares, histórico de câncer de mama e outros fatores relevantes, sempre guiada por um médico, não por achismo.  Estudos recentes reforçam que o melhor cenário é a combinação de terapia hormonal, quando indicada, com exercício estruturado, pois essa dupla protege mais o osso, melhora a composição corporal e contribui para uma melhor qualidade de vida.

Sintomas gerais, sono e bem‑estar psicológico

Além de gordura, músculo e osso, a menopausa mexe profundamente no humor, no sono e na energia. O estrogênio tem receptores no cérebro e modula neurotransmissores como dopamina e serotonina. A queda hormonal aliada com fatores como estresse da rotina e jornadas duplas ou triplas, dentre outros fatores, se torna um cenário propício para sintomas psicólogicos.

Programas de treinamento em mulheres pós‑menopausa demonstram redução de ansiedade, melhora de humor e aumento de função sexual. Isso significa que o treino não é um remédio instantâneo, mas um suporte concreto para lidar melhor com o que não muda de forma imediata.

Recomposição corporal versus envelhecimento: velocidade e possibilidades

Na menopausa, a recomposição corporal pode ser mais lenta do que em fases anteriores, mas, na maioria dos casos, ainda é possível. Ela segue a mesma lógica: reduzir gordura (especialmente visceral) e manter ou aumentar massa muscular. Sem treino, o corpo tende a perder músculo e ganhar gordura abdominal com mais intensidade, mas, com treino estruturado, alimentação orientada e sono de qualidade, é possível frear ou reverter esse cenário. Ou seja, os resultados costumam surgir em ritmo mais gradual, porém consistentes.

O treino como ferramenta de autonomia e dignidade corporal

Por fim, o que vale reforçar é que o treinamento na menopausa, e até mesmo antes dela, não é opcional, é estratégico. Ele não resolve tudo sozinho, mas é um dos pilares mais sólidos para controlar ganho de gordura, preservar músculo, proteger o osso, melhorar humor, sono e até função sexual. Mais do que uma lista de exercícios, é um projeto de vida, um plano de longo prazo para envelhecer com mais função, menos dor e mais liberdade.

 

Este artigo é assinado por colunista convidado(a). As opiniões e informações apresentadas são de responsabilidade do(a) autor(a) e não representam, necessariamente, a posição editorial do Radar Fitness.