Aquela dor insistente ao subir escadas, o desconforto ao agachar ou o incômodo que aparece após uma atividade física nem sempre são apenas sinais de cansaço. Em muitos casos, esses sintomas podem indicar um problema articular que costuma avançar de forma silenciosa: a condromalácia, condição marcada pelo desgaste progressivo da cartilagem, estrutura responsável por amortecer o impacto entre os ossos e garantir movimentos suaves.
Embora seja mais conhecida por afetar o joelho, especialmente a região da patela, a doença também pode atingir outras articulações, como ombro e quadril, provocando dor, limitação funcional e comprometimento da qualidade de vida.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), a condromalácia está entre os problemas relacionados ao desgaste da cartilagem e à sobrecarga mecânica das articulações, frequentemente associada à prática esportiva inadequada, desalinhamentos corporais e movimentos repetitivos. As dores no joelho, inclusive, estão entre as principais queixas ortopédicas, sobretudo entre pessoas fisicamente ativas e atletas amadores.
Segundo o ortopedista especialista em joelho do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Recife (IOT), Dr. Dilamar Pinto, um dos grandes desafios da condição é justamente sua evolução discreta, fazendo com que muitas pessoas negligenciem os primeiros sinais.
“O paciente geralmente começa a perceber um desconforto leve, principalmente em situações simples do cotidiano, como subir escadas, agachar ou permanecer muito tempo sentado. Como a dor inicialmente parece pequena, muitos ignoram. O problema é que, com o passar do tempo, o desgaste da cartilagem pode aumentar e o quadro se tornar mais intenso”, explica.
A cartilagem atua como uma espécie de proteção entre os ossos, reduzindo o atrito durante os movimentos. Quando há excesso de carga, desalinhamento biomecânico ou repetição excessiva de impacto, esse tecido pode sofrer desgaste gradual.
Apesar de a forma patelar, localizada no joelho, ser a mais conhecida, o mecanismo da doença pode se repetir em outras regiões do corpo. “No ombro, pode estar associado a lesões do manguito rotador. Já no quadril, costuma ter relação com impactos repetitivos e alterações biomecânicas. O padrão é semelhante, o que muda é a articulação acometida”, detalha o médico.
Entre os fatores de risco estão o sedentarismo, excesso de peso, alterações posturais e a prática inadequada de exercícios físicos. O retorno abrupto às atividades, sem fortalecimento ou orientação profissional, também pode acelerar o problema – situação frequente entre os chamados “atletas de fim de semana”.
Para evitar complicações, o diagnóstico precoce faz toda a diferença. A SBOT destaca que identificar a condromalácia ainda nos estágios iniciais permite tratamentos conservadores mais eficazes, reduzindo o risco de evolução para doenças degenerativas, como a artrose.
“O maior erro não é sentir a dor, mas ignorar os sinais que o corpo está emitindo. Quando identificamos cedo, conseguimos controlar os sintomas, melhorar a função da articulação e preservar sua estrutura”, reforça Dr. Dilamar Pinto.
Na maioria dos casos, o tratamento envolve fisioterapia, fortalecimento muscular, reeducação dos movimentos e adaptação das atividades físicas, buscando reduzir a sobrecarga articular e melhorar o alinhamento do corpo.
Mais do que aliviar dores momentâneas, o cuidado com as articulações representa um investimento em mobilidade e autonomia no futuro. “Movimentar-se de forma correta não significa apenas reduzir sintomas, mas preservar estruturas essenciais para a qualidade de vida ao longo dos anos”, conclui o especialista.