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Prevenção, tratamento e qualidade de vida: as evidências do exercício no câncer de mama

01/10/2026

Por Elton Alves

O treino de força e o exercício aeróbico deixaram de ser periférico no câncer de mama. A literatura científica atual os coloca como parte relevante da prevenção, do tratamento e da recuperação, com impacto sobre o risco da doença, a tolerância às terapias, a capacidade física, a fadiga e a qualidade de vida.

Prevenção primária: o poder do movimento antes do diagnóstico

No câncer de mama, prevenção não se limita a mamografia, consulta em dia ou diagnóstico precoce. Há também a prevenção primária, que busca reduzir a chance da doença surgir, e é aí que a atividade física se consolidou como um dos fatores modificáveis mais consistentes. Mulheres fisicamente ativas tendem a ter menor risco de desenvolver câncer de mama. Esse efeito parece vir não de um único caminho, mas de uma combinação de mudanças hormonais, metabólicas e inflamatórias que tornam o organismo menos favorável ao aparecimento e à progressão tumoral. É aqui que fatores ligados ao estilo de vida podem interferir nesse processo.

O exercício ajuda a controlar a gordura corporal, melhora a sensibilidade à insulina e reduz a inflamação sistêmica de baixo grau, três eixos fortemente ligados ao risco de câncer de mama, sobretudo após a menopausa. Também parece reduzir a disponibilidade biológica de estrogênios, ao aumentar proteínas que se ligam a hormônios sexuais, além de reforçar a vigilância imunológica. É um conjunto de efeitos que ajuda a explicar por que o benefício preventivo é especialmente nítido em mulheres com obesidade, sedentarismo ou alterações metabólicas. Não é um único mecanismo que explica os efeitos na prevenção, mas sim a soma de vários desses “caminhos”.

Aliados no tratamento: aeróbico e força em ação conjunta

No tratamento, os dois tipos de exercício cumprem funções complementares. O aeróbico protege sobretudo a aptidão cardiorrespiratória. Já o treino de força é mais eficiente para recuperar força muscular e preservar funcionalidade, duas perdas frequentes durante quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia. Quando aparecem juntos em programas combinados, os resultados tendem a ser mais amplos, com melhora consistente de capacidade física, fadiga e qualidade de vida, especialmente em programas supervisionados e praticados com regularidade.

Um dos efeitos mais sólidos do exercício no câncer de mama está no combate à fadiga. Esse sintoma frequentemente empurra a paciente para um ponto crítico de inatividade, perda de condicionamento e piora funcional. Tanto o exercício aeróbico quanto o de força ajudam, mas os programas combinados e supervisionados tendem a produzir os maiores ganhos, com efeito mais claro quando realizados com regularidade ao longo da semana.

A batalha silenciosa: a importância do treino de força

O treino de força merece atenção especial porque enfrenta uma das consequências mais silenciosas do tratamento: a perda de força e massa muscular. Essa perda compromete tarefas cotidianas, amplia o risco de incapacidade futura e pesa mais ainda em mulheres idosas, um grupo no qual o treinamento resistido mostrou ganhos consistentes de força e função física, inclusive com manutenção parcial após a transição para exercícios em casa.

Além dos sintomas: o impacto biológico do exercício

O exercício também começa a mostrar efeitos que vão além do controle de sintomas. Durante a quimioterapia neoadjuvante, treino aeróbico e treino de força se associaram a menor interrupção precoce do tratamento, e o aeróbico mostrou sinais de benefício sobre a resposta tumoral em alguns subgrupos, embora esse ponto ainda exija confirmação adicional e cautela nas conclusões. Estudos menores também sugerem melhora de biomarcadores tumorais, parâmetros inflamatórios, perfil metabólico e qualidade de vida, o que reforça a hipótese de que o exercício atua não só sobre o bem-estar, mas também sobre o ambiente biológico em que o tumor evolui. E isso é um ponto fundamental em como o exercício precisa ser encarado.

Conclusão: exercício como parte oficial do cuidado

A mensagem central é simples: no câncer de mama, exercício não é adereço de estilo de vida. A evidência sustenta que ele funciona como parte relevante do cuidado e da prevenção, com o treino aeróbico, o treino de força e, muitas vezes, a combinação dos dois oferecendo benefícios diferentes e complementares. É sempre importante lembrar da relação entre o exercício físico e a individualidade biológica. Após a liberação clínica, os parâmetros devem ser aplicados de acordo com a realidade de cada aluna, modulando a carga conforme o feedback dela e mantendo, sempre que possível, um diálogo oportuno com a equipe médica.

 

Este artigo é assinado por colunista convidado(a). As opiniões e informações apresentadas são de responsabilidade do(a) autor(a) e não representam, necessariamente, a posição editorial do Radar Fitness.