Resiliência, fé e disciplina. Essas três palavras ajudam a traduzir a história de Carmem Tavares, uma mulher que transformou a dor em combustível para correr cada vez mais longe. Nutricionista, servidora pública e mãe, ela já soma mais de 300 medalhas no peito e um currículo de peso em maratonas e ultramaratonas pelo Brasil. Aos 50+, Carmem segue desafiando os próprios limites — e inspirando quem cruza seu caminho.
Confira os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao Radar Fitness.
Radar Fitness — Como começou sua paixão pela corrida e, especialmente, pelas ultramaratonas?
Carmem Tavares — Começou em um momento muito difícil da minha vida. Em 2008, me mudei para Arcoverde, passei por um divórcio com uma filha de 8 anos e um bebê de 1 ano. Depois perdi meu pai e, dois anos depois, minha mãe. Estava emocionalmente destruída e o médico me recomendou fazer exercícios. A corrida virou minha terapia. Era como se o vento e o suor lavassem a alma. Em 2012, participei da minha primeira prova oficial, a Eu Amo Recife. Com o tempo, fui aumentando o volume dos treinos, fiz 10 maratonas e minha primeira ultramaratona.
RF — E o que te motivou a encarar distâncias tão desafiadoras?
Carmem — A sensação de estar mais tempo no asfalto, sabe? A cabeça vai longe, e o corpo vai junto. É um prazer difícil de explicar.
RF — Teve alguém ou algum momento que te inspirou a seguir nesse caminho?
Carmem — A dor foi minha maior inspiração. A separação, as perdas. Correr me salvou.
RF — Entre tantas medalhas, tem alguma que tenha um significado especial?
Carmem — A da ultramaratona de Xingó, em 2023. Era uma prova de 30 km, mas me perdi na trilha e acabei fazendo 40 km. O percurso era muito difícil, e eu estava exausta. Mas completei. Foi um marco pra mim.
RF — Já pensou em desistir?
Carmem — Desistir de correr? Nunca. O que me dá medo é não poder correr.
RF — Qual foi a prova mais desafiadora até agora?
Carmem — Também foi a de Xingó. A trilha era insana. Me perdi, teve um momento em que achei que não ia sair dali. Depois disso, o próprio organizador mudou o percurso para edições futuras.
RF — Como é sua rotina de treinos?
Carmem — Nada romântica, é mais terapêutica. Treino seis dias por semana, descanso só um. Cuido da alimentação, suplementação, sono e sigo à risca minha planilha. É um estilo de vida.
RF — Tem algum ritual antes das provas?
Carmem — Tenho sim. Sou apaixonada por Jesus e sempre peço que Ele corra comigo. Nos trechos difíceis, imagino Ele pegando na minha mão nas subidas. Isso me fortalece demais.
RF — Como você equilibra os treinos com trabalho e vida pessoal?
Carmem — É desafiador. Trabalho 8 horas por dia, mas com deslocamentos passo mais de 12 horas fora. Nos dias de fortalecimento, saio direto do trabalho para a academia. Também reservo um tempo para passear com minha cachorrinha, conversar com minhas filhas e, aos fins de semana, fazemos algo juntas depois do longão. É tudo bem encaixado.
RF — E como a sua formação em nutrição influencia na sua vida de atleta?
Carmem — Totalmente. A alimentação faz toda diferença na performance. Uso suplementos como magnésio, potássio e pré-treino. Antes das provas, invisto em carboidratos e muita hidratação. No pós, proteínas e mais carboidratos para recuperação.
RF — Já pensou em competir fora do Brasil?
Carmem — Sim. Embora a maioria das provas que participei sejam internacionais (no Brasil mesmo), quero concluir o circuito Mega Finisher, que inclui provas no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai e Peru. Temos 60 meses para finalizar todas.
RF — Já viveu alguma situação curiosa nas competições?
Carmem — Na minha primeira meia maratona no Rio, em 2016, vi que o número do peito vinha com meu nome. Achei aquilo o máximo! (risos)
RF — Que conselho você daria para mulheres que querem correr longas distâncias?
Carmem — Treinem, durmam bem, alimentem-se direito. Corrida pode até não ser, mas é extremamente terapêutica.
RF — Como você vê o papel da mulher no esporte, especialmente nas ultramaratonas?
Carmem — Ímpar. As mulheres são muito mais fortes do que imaginam.
RF — Já enfrentou preconceitos por ser mulher ou por causa da idade?
Carmem — Muito mais por ser 50+ do que por ser mulher. Já perguntaram se eu tinha certeza de que ia correr determinada distância. São situações constrangedoras, mas sigo firme.
RF — O que te motiva nos dias mais difíceis?
Carmem — A disciplina. Ela me ensina que, mesmo sem vontade, a gente precisa fazer.
RF — Com uma rotina tão puxada, ainda sente prazer em correr?
Carmem — Às vezes dá vontade de jogar tudo pro alto. Mas se fico sem correr, entro em crise de abstinência. É minha terapia.
RF — Qual o segredo para equilibrar tantos papéis: atleta, nutricionista e servidora pública?
Carmem — Amar o que faço e ter disciplina. Isso faz toda a diferença.
RF — Existe alguma prova dos sonhos?
Carmem — A Maratona do Rio do Rastro, em Santa Catarina. Quero muito fazer.
RF — E como se imagina daqui a alguns anos, profissional e esportivamente?
Carmem — Quero ser uma nutricionista cada vez mais envolvida com a corrida, ajudando atletas a alcançarem seu melhor desempenho.
RF — Que legado você gostaria de deixar?
Carmem — Que as pessoas comecem. Invistam em si mesmas. A corrida é um remédio natural para o corpo e para a mente.
Fotos: Cedidas pela atleta