Conciliar uma alimentação saudável na infância com a rotina atribulada tem sido um desafio cada vez maior para as famílias. Nos últimos anos, os hábitos alimentares das crianças mudaram de forma significativa, refletindo diretamente no seu desenvolvimento. Doenças como sobrepeso, diabetes e hipertensão, antes associadas apenas aos adultos, já começam a atingir também as crianças. A praticidade dos industrializados ganhou espaço no dia a dia, enquanto refeições caseiras, frutas e alimentos integrais, com menos açúcar e gordura, foram ficando cada vez mais distantes da mesa dos pequenos. Para entender como lidar com essa realidade, ouvimos a nutricionista comportamental Rafaella Crespo, especialista em dificuldades alimentares, que aponta os principais desafios atuais e indica caminhos para ajudar os pequenos a construírem uma relação mais positiva com a comida.
De acordo com Rafaela, a rotina apertada dos cuidadores influencia diretamente no que vai ao prato das crianças. “Muitas vezes, a falta de tempo afasta os pequenos dos alimentos caseiros e naturais”, aponta. Entretanto, nesse processo, recusar um alimento ou outro faz parte do crescimento, especialmente na fase entre os 2 e 6 anos, mas há situações que merecem atenção. Segundo Rafaella, é hora de procurar ajuda profissional quando a criança passa a excluir grupos inteiros, como frutas, proteínas ou cereais, ou quando só aceita determinadas texturas e marcas. Limitar-se a menos de 20 tipos de alimentos também é um sinal importante.
Na tentativa de resolver o “problema”, muitas famílias acabam reforçando o comportamento negativo. “Forçar, ameaçar ou chantagear a criança para comer são erros muito comuns. A intenção
é boa, mas isso cria uma memória negativa em relação à comida e pode piorar a situação”, destaca Rafaella.
Como estimular uma relação positiva com os alimentos?
Segundo Crespo, não existe fórmula única, mas algumas estratégias podem ajudar. Envolver a criança no processo de escolha e preparo dos alimentos, por exemplo, pode transformar a refeição em um momento mais prazeroso. “Levar a criança à feira, deixá-la higienizar as frutas ou participar de uma receita de forma lúdica faz diferença. O mais importante é não haver pressão. A criança precisa interagir com o alimento de maneira natural”, orienta a especialista. Ela também destaca a importância da família no processo. “Não adianta querer que o filho coma frutas se isso não faz parte da rotina da família. Os pais são os principais modelos para a criança”.
O desafio da rotina corrida
Para famílias com pouco tempo disponível, a organização pode ser uma grande aliada. “O básico bem feito já é um grande passo. É possível montar cardápios simples, priorizar grãos naturais, tubérculos e usar o congelamento como estratégia para ter sempre opções nutritivas à mão”, recomenda Rafaella.
A especialista ainda reforça que a alimentação infantil precisa ser tratada com paciência, constância e afeto. “Criar um ambiente seguro, sem cobranças excessivas, é essencial para que a criança desenvolva uma relação saudável com a comida”.
Fotos: cedidas pela nutricionista