Foi assim que Janaína Guerra começou a contar sua história durante um encontro com jornalistas na Usina Connect, no Recife. Empresária do setor de paisagismo, ela falava sobre uma fase em que, apesar de todas as responsabilidades, havia deixado de ocupar o primeiro lugar na própria vida.
A experiência pessoal de Janaína se cruza com a história de Danielle Duca, advogada, gestora pública, empresária, mãe e atleta. As duas têm a mesma idade, moram no mesmo prédio e descobriram, por meio do treinador, que os filhos também estudavam na mesma escola. Vieram as afinidades, a amizade e, depois, a ideia de transformar experiências semelhantes em um movimento voltado para outras mulheres.
Nascia o 40 na Real. A proposta é simples de entender, mas profunda na prática: ajudar mulheres, especialmente depois dos 40, a perceberem que cuidar de si não precisa significar abandonar os outros.
Sair dos bastidores
Para Janaína, uma mulher pode estar nos bastidores da própria vida independentemente do peso ou da aparência. “Tem muitas mulheres magras vivendo nos bastidores”, afirmou.
A expressão passou a representar um dos pilares do movimento. Estar nos bastidores, segundo ela, é quando a mulher deixa de exercer seus talentos, seus desejos e sua própria identidade porque está sempre ocupada em atender às necessidades de todo mundo.
“Quando a gente está ali nos bastidores, a gente não consegue exercer o nosso dom. Então a vida passa e a gente não entrega o melhor das nossas vidas”, explicou.
Foi justamente essa percepção que fez Janaína olhar para a própria trajetória de outra maneira. Ela conta que tomou a decisão de se priorizar e que essa escolha mudou não apenas sua relação com o próprio corpo, mas também sua forma de viver.
Danielle também passou por esse processo. Há 13 anos, decidiu se colocar em primeiro lugar. “Eu decidi me escolher”, resumiu.
Para ela, a decisão não significou deixar de ser mãe, esposa ou profissional. Significou entender que todos esses papéis não poderiam existir às custas do desaparecimento da mulher que estava por trás deles.
Desde pequenas, aprendemos a cuidar dos outros
Durante a conversa, Danielle chamou atenção para um comportamento que, segundo ela, acompanha muitas mulheres desde a infância.
Meninas aprendem cedo a cuidar. Ganham bonecas para alimentar, panelinhas para brincar e, pouco a pouco, incorporam a ideia de que precisam estar disponíveis para os outros.
“Culturalmente, é isso. A mulher existe para servir, para cuidar. E a gente gosta de exercer esse papel. Só que a que preço?”, questionou.
A questão, para ela, não está em deixar de cuidar. O problema é quando a mulher passa a acreditar que não pode cuidar de si também.
É nesse ponto que o 40 na Real tenta provocar uma mudança de percepção. A proposta é mostrar, por meio das próprias experiências das fundadoras, que uma mulher pode conciliar família, trabalho, maternidade, relacionamento, vida social e atividade física sem precisar desaparecer dentro dessas funções.
Danielle conta, por exemplo, que começa o dia cedo e muitas vezes só chega em casa à noite. Mesmo assim, encontrou espaço para o esporte e para o autocuidado.
E é justamente essa rotina real que ela e Janaína querem mostrar.
Não existe a intenção de apresentar uma vida perfeita ou uma atleta profissional como modelo. A ideia é mostrar mulheres comuns, com responsabilidades, dificuldades, filhos, trabalho e pouco tempo, que ainda assim decidiram se movimentar.
O corpo foi o começo, mas a transformação foi muito maior
A atividade física aparece como um dos principais instrumentos do 40 na Real.
Janaína conheceu, através do movimento, uma transformação que começou no corpo, mas ganhou outras dimensões. Depois de perder 27 quilos, ela conseguiu engravidar naturalmente após dez anos de tentativas.
A história de Danielle também passa pela maternidade. Depois de uma década tentando engravidar e de passar por diferentes fertilizações, ela engravidou naturalmente aos 41 anos.
Durante a gestação, continuou ativa. Treinou, competiu e até surfou grávida.
Para ela, a experiência reforçou uma convicção: o movimento pode ser uma porta de entrada para mudanças que vão muito além da estética.
“Um dos pilares do 40 na Real é o movimento como portal de transformação”, afirmou.
A lógica é que, quando a mulher começa a movimentar o corpo, algo também começa a se movimentar dentro dela. A mudança pode aparecer na autoestima, na disposição, na saúde, na confiança e até na maneira como ela se relaciona com as pessoas ao redor.
Cuidar de si também transforma a família
Janaína lembra que, durante o período em que estava nos bastidores, não percebia o quanto aquela situação afetava sua própria vida e as relações dentro de casa.
Hoje, ela diz viver uma relação mais saudável com o marido e os filhos.
A mudança também provocou situações em que precisou lidar com julgamentos externos. Ela contou, durante o encontro, que já ouviu questionamentos sobre o impacto que o fato de começar a treinar e cuidar mais do corpo poderia ter no casamento.
A resposta veio da própria experiência: para ela, aquela passou a ser uma das melhores fases da relação.
“Quando você prioriza a sua vida, que você vai treinar, que você cuida do seu corpo, você fica mais bonita. E não é para todo mundo. Você está mais bonita porque está alegre com a vida”, afirmou.
É uma visão que as duas querem levar para outras mulheres: cuidar de si não é um ato de egoísmo. Pode ser justamente uma forma de fortalecer a relação com a família, com o trabalho e com as pessoas que fazem parte da vida.
Uma nova mulher depois dos 40
O 40 na Real também nasceu de uma constatação: a mulher que chega aos 40 hoje não é necessariamente a mesma imagem de mulher que existia algumas décadas atrás.
Danielle lembra que, quando era adolescente, as mulheres de 40 anos que conhecia eram vistas de uma maneira muito diferente.
Hoje, ela própria, aos 44 anos, se vê em situações que nunca imaginou viver. Entre elas, estar em um palco mundial de um esporte que pratica.
“Eu nunca me imaginei aos 44 anos estar num palco mundial de um esporte que eu pratico”, contou.
A mensagem é que a idade não precisa representar uma redução de possibilidades. Pode ser justamente o contrário.
Aos 40, a mulher pode começar um esporte, mudar hábitos, descobrir novas habilidades, empreender, competir, ser mãe novamente, cuidar da saúde ou simplesmente decidir que quer voltar a gostar da própria vida.
Um convite para quem ainda está nos bastidores
Janaína e Danielle sabem que muitas mulheres que acompanham o movimento ainda estão no lugar que elas próprias conheceram.
E não querem falar com essas mulheres a partir de um lugar de julgamento.
Querem acolhê-las.
Para as fundadoras, muitas vezes a mulher que está nos bastidores olha para quem decidiu mudar e julga porque ainda não conseguiu fazer o mesmo. O propósito do 40 na Real é provocar outra reação: em vez de julgamento, identificação. Mostrar que existe outro caminho.
No fim, o movimento não é sobre ter um determinado corpo aos 40. Também não é sobre transformar todas as mulheres em atletas.
É sobre perceber que existe uma vida inteira acontecendo enquanto elas cuidam de todo mundo.
E que, em algum momento, também pode ser a vez delas.
É disso que trata o 40 na Real: colocar a mulher em movimento para que ela volte a ocupar o lugar de protagonista da própria história.
Fotos: Mell Correia e @40nareal