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Entre o cuidado e o autocuidado: mães encontram no esporte um caminho de recomeço

09/05/2026

Antes de qualquer pausa, existe a responsabilidade. Antes de pensar em si, vem o cuidado com o outro. Para muitas mulheres, a maternidade transforma completamente a rotina, o corpo, o tempo e até a forma de enxergar a própria identidade.

Entre noites mal dormidas, trabalho, filhos, casa e uma rotina que parece não ter fim, o autocuidado quase sempre fica em segundo plano. Ainda assim, algumas mães têm encontrado no esporte uma forma de resgatar algo essencial: o próprio equilíbrio.

Seja na corrida ao amanhecer, em treinos rápidos na academia ou em pequenos momentos de movimento ao longo do dia, a atividade física passou a representar muito mais do que saúde. Tornou-se refúgio, alívio emocional e reconexão consigo mesmas.

A farmacêutica Vitória Lanay conhece bem essa transformação. Mãe de dois filhos pequenos, ela começou a correr há apenas dois anos com um objetivo simples: perder peso. O que não imaginava era que o esporte mudaria completamente sua vida.

Com disciplina, passou a conquistar resultados nas pistas e, há quatro meses, decidiu se desafiar ainda mais ao iniciar no triathlon.

Conciliar treinos intensos, maternidade e profissão exige uma rotina quase milimétrica. Muitas vezes, Vitória acorda às 3h da manhã para conseguir treinar antes de começar o restante do dia.

“É pelos meus sonhos e pela vontade de ir além que encontro forças todos os dias”, conta.

Na maternidade atípica, os desafios costumam ser ainda maiores. Aos 30 anos, Aldeny Kelly divide a rotina entre o trabalho, os cuidados com Emmanuel, de 7 anos, diagnosticado dentro do espectro autista, e a criação da pequena Manuela.

Foi com o apoio da família que ela conseguiu voltar à musculação e iniciar na corrida – algo que antes parecia impossível.

“Antes eu não corria nem atrás do ônibus”, brinca. “Hoje entendo que cuidar de mim também faz parte do cuidado com minha família.”

A rotina exige organização, rede de apoio e adaptação constante. Entre escola, terapias, consultas e trabalho, os treinos acontecem nos espaços possíveis. Ainda assim, ela faz questão de manter esse momento para si.

“Com a chegada dos meus filhos, minha existência passou a ter sentido. Eu renasci”, afirma emocionada.

A administradora Camila Neli também encontrou na atividade física uma nova relação com o próprio corpo após a maternidade. Mãe da pequena Luiza, ela conta que o olhar sobre si deixou de ser apenas estético e passou a envolver saúde, força e bem-estar.

“Hoje meu corpo carrega a maior realização da minha vida: minha filha. Quero que ela cresça me vendo como inspiração de cuidado, saúde e amor-próprio”, destaca.

Camila lembra que o retorno aos treinos não foi simples. O puerpério, as noites sem dormir e as mudanças emocionais tornaram o processo mais desafiador.

“Foi uma fase em que tudo dói: o corpo, o cansaço, o emocional. Mas também foi um período de muito aprendizado e força.”

Segundo a psicóloga Vivian Almeida, a maternidade provoca transformações profundas na identidade da mulher e pode despertar sentimentos como culpa, autocobrança e sensação de insuficiência.

“Muitas mães vivem tentando corresponder às expectativas impossíveis sobre o que seria ser uma boa mãe”, explica.

A especialista reforça que o autocuidado não deve ser visto como luxo, mas como necessidade emocional. Para ela, a prática de atividade física pode ajudar diretamente na redução da ansiedade, do estresse e na melhora do bem-estar mental.

“Mais do que estética ou desempenho, o exercício pode representar reconexão, equilíbrio e cuidado consigo mesma”, afirma.

Mesmo com os benefícios, a falta de tempo e de rede de apoio ainda são obstáculos para muitas mulheres. Por isso, especialistas orientam que o mais importante é começar dentro da própria realidade, mesmo que aos poucos.

Mais do que metas ou performance, essas mães têm encontrado no movimento pequenas pausas capazes de transformar dias inteiros.

Neste Dia das Mães, as histórias revelam uma verdade muitas vezes esquecida: cuidar de si também é uma forma de amar.

Fotos: Divulgação