Quem disse que envelhecer é sinônimo de parar? Cada vez mais, homens e mulheres com mais de 60 anos estão provando o contrário, trocando o sedentarismo por caminhadas, musculação e até dança. A atividade física na terceira idade não é apenas possível – é essencial para viver com mais autonomia, saúde e alegria.
Geriatras e educadores físicos reforçam que manter o corpo em movimento pode prevenir doenças, melhorar o humor, preservar a funcionalidade e garantir mais independência.
A cardiogeriatra Jéssica Garcia destaca os inúmeros ganhos para a saúde global do idoso:
“A atividade física regular melhora a função cardiovascular, respiratória, muscular e articular. Também favorece o equilíbrio e previne quedas. Tem efeitos diretos sobre a saúde mental, reduz sintomas de depressão, ansiedade e melhora a cognição. Do ponto de vista funcional, ajuda o idoso a manter sua independência nas atividades do dia a dia.”
Ela alerta, no entanto, que é fundamental realizar uma avaliação médica antes de iniciar qualquer rotina de exercícios.
“Essa avaliação pode incluir exame físico, eletrocardiograma, exames laboratoriais e análise da função cognitiva e do equilíbrio. Também é importante considerar o histórico de doenças, o uso de medicações e eventuais limitações físicas.”
Jéssica ressalta ainda os benefícios da atividade física no controle e prevenção de doenças como diabetes tipo 2, osteoporose, hipertensão e obesidade. E reforça os sinais de alerta que indicam a necessidade de parar ou reduzir o ritmo:
“Falta de ar desproporcional ao esforço, dor no peito, tontura, palpitações, dor muscular persistente ou inchaço nas articulações. Se houver quedas, desmaios ou confusão mental, o ideal é interromper a atividade e buscar orientação médica.”
Mesmo diante de tantos benefícios, ela lamenta que o exercício físico ainda seja subprescrito na prática clínica:
“Apesar das evidências científicas sólidas de que o exercício tem efeito terapêutico comparável ao de muitas medicações, ele ainda é pouco valorizado. Mas temos observado um movimento crescente, principalmente na geriatria, para mudar esse cenário.”
A médica também envia uma mensagem especial para quem ainda está no sedentarismo:
“Os benefícios podem ser percebidos em qualquer idade. Comece devagar, respeitando os limites do corpo, com orientação adequada. O mais importante é dar o primeiro passo. Cada movimento conta para uma vida mais saudável e independente.”
Treino personalizado, não padronizado
O professor da UFRPE e doutor em Educação Física, Breno Farah, explica que adaptar os treinos na terceira idade não deve ser feito apenas com base na idade:
“Idade, por si só, não é contraindicação ao exercício. O que importa são as condições individuais de saúde. Muitos idosos convivem com doenças crônicas como hipertensão, diabetes, artrose, ou passaram por eventos como AVC ou infarto. Por isso, é necessário avaliar cada caso, garantir que essas condições estejam controladas e planejar o treino com cuidado.”
Ele critica a ideia ultrapassada de que o treino deve ser doloroso para ser eficaz:
“A ideia de ‘sem dor, sem ganho’ é prejudicial, especialmente para idosos. O objetivo do exercício deve ser promover funcionalidade, bem-estar e autonomia.”
Para ele, todos os tipos de atividade física são bem-vindos após os 60 anos – o importante é se mover. Mas se tivesse que escolher uma modalidade principal, seria a musculação:
“Ela ajuda a recuperar força e massa muscular, comuns após décadas de sedentarismo. Isso é essencial para prevenir quedas, que representam um dos maiores riscos para essa faixa etária.”
Breno também chama atenção para o aspecto social das atividades físicas:
“A terceira idade costuma ser um dos públicos mais engajados, quando o ambiente é acolhedor. Muitos valorizam profundamente o convívio social, e por isso as aulas coletivas fazem tanto sucesso.”
Sobre quando começar a se exercitar, ele é direto:
“Desde a infância. A prática deve estar presente em todas as fases da vida. Quanto mais cedo se constrói essa cultura, maiores os benefícios acumulados.”
Histórias que inspiram
O aposentado Joaquim Neto, 77 anos, é um exemplo de superação. Perito aposentado da Polícia Federal, ele conta que praticou esporte durante a vida, mas parou por um tempo após se separar:
“Cheguei a pesar 125 quilos. Há cinco anos, resolvi voltar para a academia porque sabia que, pagando, eu ia me forçar a ir. Já tinha academia no prédio, mas não usava. Comecei, perdi 15 quilos, depois tive um problema no joelho e parei por alguns meses. Agora voltei, faço em média quatro vezes por semana. O exercício me dá saúde, vontade de viver, mobilidade e clareza mental. É muito bom.”
Já o policial aposentado Geraldo Silva, 55 anos, mantém uma rotina ativa desde a juventude:
“Comecei ainda na roça, depois vim para o Recife e entrei na PM. Sempre fiz atividade física. Corria 21 km por dia e fazia funcional. Hoje reduzi para 5 km, mas continuo com musculação. Me sinto feliz e motivado.”
Essas histórias reforçam o que os especialistas afirmam: a atividade física é uma aliada poderosa na terceira idade. Mais do que acrescentar anos à vida, ela pode – e deve – acrescentar vida aos anos.