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Olha o veinho aí!

30/04/2025

Os 71 anos recém completados não intimidam o veinho. Ele continua inspirando uma turma a acordar cedo e ganhar as ruas do Recife correndo. Difícil é treinar na zona norte da cidade e não escutar um “valeu, campeão”, a frase de incentivo dita por ele quando encontra um seguidor pelo caminho. A maioria é jovem, na casa dos 30 anos, e vê ao lado um grande estímulo. A corrida, que agora pode ser uma novidade para eles, é um projeto antigo de Lula Holanda. São mais de 20 anos percorrendo ruas afora, uma prática que soma ao atleta uma média de 253 quilômetros percorridos por mês, participação em 139 maratonas/ultramaratonas e quase 85 mil quilômetros já rodados no total, o que significa mais de duas voltas completas em torno da terra.

De manto azul, marca registrada da sua Associação de Corredores da Jaqueira – Acorja, Lulunha foi o convidado especial para a estreia do Perfil Radar Fitness. No bate-papo onde tudo começou – o Parque da Jaqueira, ele abriu o baú de memórias e refletiu sobre a importância do seu papel como entusiasta de uma vida mais saudável e longeva.

Radar – Muitos jovens abraçaram a corrida e estão adotando hoje um estilo de vida mais saudável, um movimento plantado certamente por corredores que vieram antes. Como a corrida surgiu na sua vida?

Lulinha – Foi nos meus 50 anos e o motivo foi exatamente uma depressão. Eu era diretor de um banco e, naquela época, fui convidado para ser desligado. Eu estava nesse cargo (como diretor) e tinha 25 anos no banco. Isso aí mexeu muito comigo, porque, na minha cabeça, ainda tinha muita disposição. E eu sofri uma queda danada. Mas, como eu moro aqui perto da Jaqueira, despertei para a caminhada. Antes, eu só vinha aqui brincar com os meus filhos, mas, depois desse momento, comecei a caminhar para desopilar. Foi caminhando e trotando que eu comecei a conhecer pessoas como um professor de educação física, o Márcio, que me convidou um dia para fazer um teste de corrida. Eu disse, rapaz, não corro não (sorri), mas ele disse “vem embora”. Aí isso me motivou a fazer uma coisa programada, a caminhar e trotar. Isso foi o suficiente para tudo começar a agir na minha vida, a melhorar as coisas. Aí eu conheci um grupinho, porque aqui (na Jaqueira) é cheio de grupos de corrida que sai, e me encaixei em um. A gente sempre se encontrava naquela área ali (aponta em direção à entrada principal do parque). Daí, começamos a bater papo e eu fui perdendo o medo de sair, porque, até então, eu só corria na Jaqueira. Tinha medo de sair. Fui com o grupo e comecei a gostar. Pronto, aí peguei gosto. Para você ter uma ideia, isso foi em abril, e, em junho, eu já fiz a minha primeira corrida de 10 quilômetros, que foi a primeira Corrida das Pontes aqui no Recife, em 2004.

Radar – Uns chamam de loucura e outros de seita, mas a verdade, segundo os praticantes da corrida, é que não há experiência melhor do que conseguir atravessar a linha de chegada. Essa linha inclusive pode nem ser a de uma prova oficial, mas aquela que cruzamos a cada treino. Aquele 1% melhor todo dia. O que te leva a correr? É essa vontade de superar os limites?

Lulinha – Meu projeto é qualidade de vida através da corrida. E o mais importante para mim é que, quando eu corro, motivo alguém a correr. Às vezes, as pessoas dizem “você é louco, você corre muito”, mas é porque quando eu corro eu estou levando alguém comigo. Quando eu divulgo no Instagram, no Zap, falo com os meus amigos, convido amigos na igreja – e, onde eu estou, eu convido amigos, é porque isso é qualidade de vida. Então, o que me move é levar os amigos a buscar uma vida com mais qualidade mesmo através do movimento. E eu sou movido a isso, a correr e correr.

Radar  – Juntar pessoas é um dom. Juntar pessoas para correr, então, eu diria que é um dom mágico, pois não é normal para muita gente acordar às 4h ou 5h, botar um tênis e sair por aí. Como foi, então, criar a Acorja, esse verdadeiro movimento que todo corredor do Recife conhece e respeita?

Lulinha – A verdade é que você isolado não é ninguém. Então, foi a partir desse pensamento que surgiu o grupo Acorja. Eu conversei com os amigos, isso em fevereiro de 2005, criei a logo do grupo e fiz umas camisas (ainda brancas). Eu dava as camisas para que as pessoas comprassem a ideia. E, evidentemente, vendo o movimento, eles começaram a gostar. E assim surgiu esse grupo gostoso, essa ideia de sair para correr junto que hoje já tem, oficialmente, quase 300 pessoas. Porque a conta extraoficial vai longe. Nesse tempo todo, quando eu chego aqui, a turma vem falar, é aquela festa. É como se a Jaqueira fosse a minha segunda casa. Até minha caçula, que tinha 3 anos quando eu comecei, olha pra mim e diz “olha só a sua segunda casa, pai”.

Radar – Uma legião de admiradores te acompanha, seja correndo ou pelas redes sociais. Muitos deles inclusive não fazem parte da Acorja, mas têm você como referência. Como você se sente nesse papel inspirador e à frente de um movimento tão bacana em prol da saúde e do bem-estar?

Lulinha – Para mim, é muito gratificante mover pessoas. Por exemplo, a cada cinco anos, eu faço a mesma quantidade de voltas da minha idade aqui na Jaqueira. Ano passado eu fiz 70 e a gente, lógico, deu 70 voltas no parque. E já marcamos as 75 voltas. Então, mover pessoas é isso aí. Para você ter ideia, na semana desses meus 71 anos tinha sempre, no mínimo, cinquenta pessoas comigo comemorando (correndo). O grupo Acorja está com 16 mil seguidores (no Instagram), então, esse público me escuta, ele percebe o movimento. No dia do meu aniversário mesmo esse ano tinha mais de 100 pessoas aqui com a gente, todo mundo de manto azul, que é como a gente chama a nossa camisa. Foi lindo. Então, o sentimento é o melhor possível.

Radar – Um bom corredor parece ser aquele que sempre está em busca de novos desafios, seja correr em lugares que ninguém imaginou ou concluir uma prova considerada muito difícil. Qual o maior desafio que você já enfrentou nessa jornada? Já tem um próximo em vista?

Lulinha – São vários os desafios. Eu tenho 139 maratonas e, dentre essas, 36 ultramaratona, mas o maior desafio foi exatamente os 154 quilômetros no Rio de Janeiro, uma prova de 24 horas que a gente chama. É a Ultramaratona Fuzileiros Navais. Então, eu me propus a fazer e ir ao meu limite. Aí eu consegui correr numa pista de 400 metros, dando voltas. Foram 386 voltas, não me esqueço. Que deu 154 quilômetros. Isso foi o meu maior desafio, em 2012. Foi quando eu fiz também a maratona de Paris, depois vieram outras e, entre elas, a da África do Sul, 90 quilômetros. Foi aí que surgiu a ideia e eu criei os 100km do frio. O meu próximo desafio, que já está em vista, vai ser a Maratona Nilson Lima, em Uberlândia. Nilson é um grande amigo meu, que é ultramaratonista e maratonista, que vai comemorar 400 maratonas. Eu vou fazer essa prova pela sétima vez e vai ser a minha 140º maratona. Também vou buscar, em agosto, a Muralha, uma prova dificílima, mas vou.

Radar – Nas redes sociais, você acumula quase 10 mil seguidores, mas não fala em tênis ou relógio da moda. Qual a sua opinião sobre tudo isso? Para correr é mesmo necessário todo um investimento em itens caros ou basta ter vontade?

Lulinha – Para mim, o melhor tênis é aquele que me deixa mais tranquilo e confortável. Mas é lógico que as empresas investem muito em atualização, em tecnologia, estão sempre querendo melhorar, mas isso entra também pela vertente do capitalismo. Então, eu evito a polêmica de qualquer tipo para não haver choque. Meu foco é correr.

Radar – Quando alguém resolve começar a correr é logo apresentado a conceitos como pace e cadência. Essa é uma preocupação para você? Tem algum objetivo a perseguir nesse universo de metas?

Lulinha – Sim, hoje eu tenho o meu grupo, mas não deixo de ter minhas próprias metas, que são a quilometragem e a performance. Mas eu inclusive motivo o meu pessoal, a gente busca o melhor, a gente treina, cada atleta tem sua planilha, eu não faço planilha. Mas a meta do corredor é baixar tempo. Por outro lado, existe uma preocupação no corredor de rua hoje que é o sub, 4, 3. Eu tinha isso, hoje eu não tenho mais. É tanto que eu segui à risca e consegui o meu melhor tempo na maratona de Paris. Eu fiz o meu RP (recorde pessoal) lá 3’34’’, um pace de 5,05 por quilômetro, pace médio. Então, o pace, as metas, isso tudo é importante para o corredor. Agora, eu me preocupo muito porque as pessoas ficam agoniadas e já começam no treino querendo bater meta. Aí, começam as lesões pelo esforço físico.

Radar – Em 2020, fomos apresentados a um dos períodos mais desafiadores da nossa história. O mundo vivenciava oficialmente o primeiro ano da pandemia da Covid-19. Como foi atravessar esse período de isolamento? Qual foi a sua estratégia de sobrevivência?

Lulinha – A pandemia foi um divisor na vida de todo mundo, claro. E na minha, como corredor, especialmente. Há cinco anos, eu tinha 65 anos e, em algum momento, a pandemia começou a matar os idosos. Então, a minha família sugeriu que eu parasse (de sair para correr). Minha filha, a caçula, a Heloísa, ela me prendeu mesmo. Ela dizia “pai, pelo amor de Deus, a gente não quer perder você não”. E eu fiquei dentro de casa. Passei 202 dias correndo dentro do meu apartamento. Eu corria 10 quilômetros todos os dias ali. Muita gente dizia que eu era louco, mas aí eu aproveitei a oportunidade para novamente mover as pessoas e a mim também, claro, porque se eu me motivo, motivo as pessoas. Aí eu criei, virtualmente, um movimento de correr dentro de casa. E isso aí pegou, foi pegando, pegando. Foram dois mil e vinte quilômetros. Eu não saía mesmo, ficamos isolados em família. Mas foi um momento muito crucial para a gente.

Radar  – Correr é treinar especialmente a mente para dominar o corpo, mas não dá para negar que, à medida que os anos passam, o nosso corpo vai dando sinais de cansaço. Tem sido assim para você aos 71 anos ou o veinho ainda tem muita lenha para queimar?

Lulinha – Você tem que ir se ajustando. É como eu tenho dito, o veinho está ajustando as velas para navegar melhor, para ter longevidade (sorri). Evidentemente que hoje eu corro com o grupo, mas eu movo o grupo para correr. E eu fico na estratégia, eu faço a quilometragem, mas com moderação, com um pace diferente. E o que me move hoje são as metas. Então, em janeiro de 2023, primeiro dia de janeiro, depois da pandemia, eu criei o CTD (Correndo Todo Dia). E hoje eu fechei 1.203 dias correndo todo dia. Aí tem uma pessoa que pergunta, e aí? Quando chegar a quatro anos? Rapaz, se chegar, se eu tiver bom, vou para cinco. Mas uma coisa eu lhe digo, o tempo é dono de tudo. Hoje eu tenho a consciência que eu não tenho mais a força que eu tinha antes. Eu comecei a correr aos 50, com 58 eu fiz a minha maior maratona que foi a de Paris. Hoje eu estou com 71 anos e não consigo fazer um sub-4, mas eu faço a maratona. Eu vou buscar o desafio, mas de forma consciente. Você tem que ser consciente de si mesmo.

Radar – Para algumas pessoas, não é preciso muito para começar a correr. Basta calçar um tênis e sair por aí. Que conselho você daria para quem está começando?

Lulinha – Eu diria que, para começar, é só querer. Bata no coração e diga que querer é poder, querer é poder. Eu tenho um grito de guerra na Acorja. São três verbos fortes: eu quero, eu posso e eu consigo. Eu faço até uma brincadeira, a gente brinca com esses três verbos. Mas são palavras que realmente motivam. Agora, para começar a correr, comece caminhando, comece trotando. Eu vejo corredor aí que ele desiste com dois meses. Por quê? Ele atropelou. Ele foi muito ansioso, foi muito rápido. Mas o correr é feito uma criança. A gente tem que pensar numa criança. Ele começa a engatear, depois ele se levanta, ele começa a caminhar e só depois ele corre. Ele tem que ter paciência. As coisas vão acontecendo. Vá para um parque, dê as caminhadas, com trotezinho, sempre tendo orientação, né? Se alimentando direito. Eu era obeso e sedentário quando comecei. Pesava 85 quilos, não corria. Eu não caminhava. Então, não é impossível. É manter o que eu chamo de filosofia dos três F’s, fé, força e foco, você tem que acreditar em você. É levantar-se da cama, botar uma meta na cabeça e sair.