A madrugada do último domingo (6) marcou mais do que a largada de uma ultramaratona. Foi o início de uma jornada de 100 km que cruzou o agreste pernambucano, entre o Parque Euclides Dourado, em Garanhuns, e a Faculdade Uninassau, em Caruaru. Ao longo do trajeto, passando pelas BRs 423 e 232 e por seis cidades, atletas enfrentaram subidas desafiadoras, temperaturas amenas e um cenário incrível.
Com 250 inscritos, a Ultramaratona 100 km do Frio ofereceu três modalidades: solo, dupla e quarteto. A cada 25 km, pontos de apoio garantiam suporte com hidratação, alimentação e incentivo. O tempo máximo para completar o percurso era de 16 horas mas, para muitos, o relógio era apenas um detalhe. O que importava era concluir a prova.
Mais do que uma corrida, o evento se consolidou como uma verdadeira jornada de superação, como mostram os relatos de quem viveu cada quilômetro.
Solo: A coragem de seguir sozinho
Ítalo Ramos, nutricionista e ultramaratonista, encarou os 100 km do frio em sua primeira participação na prova. Para ele, o desafio foi mais do que físico: foi uma jornada interna de resiliência e superação.
“O que me motivou foi o desejo de conhecer até onde o nosso corpo é capaz de ir. De lidar com o outro lado de nós mesmos. Quando minha cabeça pedisse para parar, o que eu faria?”
Ítalo perdeu mais de 70kg em 12 meses e encarou o desafio como um marco de transformação. “Meu objetivo era completar bem. Não queria só cruzar a linha de chegada de qualquer jeito”, contou. Com treinos intensos de corrida e musculação, e o apoio de dois treinadores, ele mostrou que o frio pode até estar no nome da prova, mas a chama da vontade é que aquece cada quilômetro.
Dupla mista: amor, legado e conexão
O casal Anderson Holanda e Taciana Seralva conquistou o 2º lugar na categoria dupla mista, mas o maior prêmio foi o simbolismo da participação. Anderson é filho de Lula Holanda, idealizador da prova, e já esteve envolvido em diversas edições como atleta e organizador.
“Essa prova vai além da corrida. É conexão com a gente mesmo, com Deus, com a paisagem. E fazer em dupla com a minha futura esposa tornou tudo ainda mais especial.”
Sobre a preparação, Anderson destacou o equilíbrio entre treinos físicos e mentais. “Trabalhei muito a respiração, a atenção plena. Porque essa é uma prova mais mental do que física.” Apesar das dificuldades enfrentadas nesta edição, ele reforça o valor da ultramaratona: “É uma joia rara. Tem um potencial turístico e cultural imenso. Precisa ser cuidada com carinho.”
Dupla Masculina: entre subidas e superação
A dupla Victor Freire e Edmundo Júnior, que conquistou o terceiro lugar, trouxe uma história de superação pessoal. Victor vem realizando uma maratona por mês desde abril e escolheu os 100 km do Frio como o desafio de julho.
“O objetivo era alcançar uma distância que eu nunca tinha feito. Não tenho assessoria, mas treinei bastante. Só não esperava tantas subidas e tanto calor!”
Mesmo com as dificuldades, a recompensa veio ao final. “Foi extremamente desafiadora, mas muito gratificante. Agora penso até em tentar o solo futuramente”, contou.
Quarteto Experiente: o valor da maturidade e do coletivo
O quarteto Expresso 234, formado por Antônio José Clementino de Castro, Wellington de Souza Flor, Edilson da Silva Valença e José Pedro de Albuquerque, levou a experiência como diferencial. Todos os integrantes têm mais de 50 anos e já participaram da prova em outras edições. Em
2025, conquistaram o 3º lugar na categoria.
“Nossa motivação foi formar um time maduro, experiente e unido. Cada um se preparou à sua maneira, física e mentalmente, com o foco de fazer os 25 km correndo e concluir com êxito.”
Criado em 2017, o Expresso 234 já subiu ao pódio nas três últimas edições da Ultra do Frio. Para eles, o mais importante é a motivação coletiva e a cumplicidade do grupo, mas destacam que a estrutura da prova ainda pode melhorar.
“A prova é fantástica e desafiadora, mas precisa evoluir. Faltou recepção na chegada e estrutura de alimentação e hidratação. A gente conclui a prova e não encontra acolhimento.”
Uma joia do esporte e da cultura nordestina – Além de representar um desafio físico, a Ultramaratona 100 km do Frio percorre trechos de imensa relevância cultural: a BR-232, que homenageia Luiz Gonzaga, e a BR-423, também conhecida como Avenida Dominguinhos. O trajeto passa por cidades envolvidas com o circuito do frio e o São João, o que torna a experiência ainda mais rica e simbólica.
Para os corredores, cada passo é uma conexão com o corpo, com a mente e com as raízes. Uma jornada em que frio, calor, subidas e paisagens se misturam para transformar o esporte em vivência.
Fotos: cedidas pelos atletas