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Sereias do Rio: coletivo que transforma o São Francisco em palco de superação e representatividade

Grupo fundado em Juazeiro por Alice Rocha, reúne mais de 200 mulheres que nadam no Velho Chico como forma de resistência, autocuidado e ocupação de um espaço historicamente masculino

03/06/2025

O Rio São Francisco há séculos é fonte de vida para as populações ribeirinhas do Nordeste. Em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), esse símbolo natural também se tornou palco de um movimento poderoso liderado por mulheres: o projeto Sereias do Rio, grupo que reúne nadadoras de todas as idades, corpos e histórias, unidas pelo desejo de ocupar as águas abertas com autonomia, saúde e solidariedade.

Fundado pela juazeirense Alice Rocha, o grupo nasceu há cerca de quatro anos, a partir de uma dor pessoal. “Comecei a nadar no rio depois da perda do meu pai. Foi um recurso terapêutico naquele momento difícil”, conta. Na época, ela percebia que a maioria dos nadadores era composta por homens. A presença feminina era mínima. “Foi aí que senti a necessidade de trazer mais mulheres para a natação no rio”.

O movimento cresceu rapidamente. Com o apoio das maratonas aquáticas organizadas pela Arca Sport, a primeira prova já reuniu cerca de 20 mulheres. A partir daí, surgiu a ideia de estruturar o grupo. Hoje, as Sereias do Rio já reúnem mais de 200 mulheres, não apenas em Juazeiro e Petrolina, mas também em outras cidades como Salvador, Serra Talhada, São Paulo e Rio de Janeiro.

Mais do que um coletivo esportivo, as sereias formam um espaço de acolhimento e incentivo. “Não é uma escola de natação, é um grupo de estímulo mesmo. A gente se apoia. Tem mulher de 60 anos sendo inspiração para outra da mesma idade, tem menina de 10 anos incentivando outras crianças. Aqui, qualquer uma pode ser sereia. Não importa a idade, o corpo, o ritmo. O importante é querer estar na água e se sentir parte. A natação é um esporte acessível, você não precisa de muito. Um óculos, uma touca, um maiô e está pronta para começar”, pontua Alice.

Transformação profunda – Muitas integrantes do grupo relatam transformações profundas a partir do contato com o esporte e com o rio. Casos de superação de depressão, melhora da saúde mental e fortalecimento da autoestima são recorrentes. A professora Marta Mulato é uma das sereias que tem essa relação profunda e afetiva com o Rio São Francisco. Natural do Sertão pernambucano, aprendeu a flutuar ainda criança, utilizando os troncos de bananeira nos açudes e riachos onde costumava brincar. Mas foi apenas no pós-pandemia que ela decidiu, de fato, aprender a nadar, primeiro na piscina, depois arriscando algumas braçadas no Velho Chico.

O marco da transformação veio quando conheceu Alice, que também buscava companhia para nadar. “Foi a primeira vez que me aventurei além da margem. Ali percebi que não sabia nadar como imaginava, mas também nasceu em mim a curiosidade de ir além”, conta Marta.

Enfrentando um quadro de quase depressão, ela encontrou no rio e no caiaque um refúgio. “O rio se tornou minha terapia”.

Durante o primeiro Desafio das Sereias — uma travessia de mais de 3 quilômetros proposta pelo grupo — Marta viveu um momento intenso. No meio do percurso, teve uma crise de pânico. “Vieram à tona memórias da infância. Lembrei histórias de afogamentos, conselhos maternos para evitar o rio, lendas sobre criaturas nas águas. Tudo isso me travava sem que eu percebesse”. Com sua experiência em práticas terapêuticas, ela respirou fundo, orou, e começou a ressignificar esses medos enquanto nadava. “Ali foi minha libertação. Foi quando me conectei de verdade com o rio e deixei os medos para trás”.

Hoje, Marta vê a natação como uma forma profunda de reconexão com a própria essência. “Somos água, e nadar no rio me faz sentir inteira. É minha terapia, minha cura. O esporte transformou minha vida a ponto de não precisar mais de remédios”.

Segurança e formação – Apesar de não ser uma escola, o Sereias do Rio se preocupa com a formação técnica das participantes. A cada mês, são realizados aulões gratuitos com professores capacitados, abertos para mulheres e homens que desejam iniciar na natação em águas abertas. O mais recente foi realizado na Ilha do Fogo, ponto simbólico entre as duas cidades.

Cuidado com o ambiente – O compromisso das Sereias do Rio vai além do esporte. O grupo também atua na conscientização ambiental, promovendo mutirões de limpeza no Rio São Francisco, tanto nas margens quanto no fundo. Em uma das ações, mergulhadores retiraram pneus, bicicletas e grande quantidade de lixo do leito do rio.

Este ano, a Travessia das Sereias, no dia 13 de julho, trará também uma ação de reflorestamento: para cada sereia inscrita, será plantada uma muda nativa da Caatinga, reforçando o compromisso do grupo com o recatingamento e a preservação do bioma local.

Todas podem ser sereias – “A pergunta que mais me fazem é: como faço para ser uma sereia do Rio? A resposta é simples: comece a nadar, venha para o rio, defenda a representatividade das mulheres na natação. Todas são bem-vindas”, reforça Alice Rocha, que vê no projeto um reflexo de sua própria história de superação e reconexão com a vida.

“O rio representa tudo pra mim. É meu quintal, meu lugar de cura. Acho que passo mais tempo nele do que em casa. É uma bênção na nossa vida”, conclui Alice.