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Da planilha à prova: quando o profissional vira atleta

01/06/2026

Por Elton Alves

A decisão veio de repente. Olhei para uma rede social, vi a postagem que iria abrir o cadastro do sorteio para as inscrições e me dei conta de que era o momento certo de tentar. Como profissional de Educação Física, passo os dias orientando alunos, montando planilhas, ajustando treinos. Mas fazia tempo que não vivia na pele um grande desafio. Fiz meu cadastro para o sorteio e só restou esperar. Apesar de ser impossível saber naquele momento, ali começava o meu ciclo.  E o grande ponto é que ele seria guiado por mim mesmo. Há um ditado que diz mais ou menos assim: cuidado com suas preces; elas podem ser atendidas. Eu fui um dos sorteados. Não tinha mais volta.

Montei a periodização com base no que a literatura tem de mais consistente: variar estímulos ao longo da semana, alternando carga e recuperação, promove a supercompensação, o fenômeno em que o corpo volta mais forte depois do estresse controlado. Dias de trote leve, intervalados que exigiam fôlego máximo e os longões progressivos. Depois de um dos primeiros treinos de tiros de 800 metros, em que terminei exausto, percebi algo importante nas semanas seguintes: o mesmo ritmo que antes me deixava ofegante agora parecia mais sustentável. A percepção de esforço havia mudado. A teoria, ali, virava resultado concreto.

O treino de força também saiu das minhas mãos, sustentado por evidências sobre economia de corrida. Atletas que incluem duas sessões semanais de força máxima melhoram em até 6% o desempenho em provas. No meu caso, a diferença apareceu na percepção do esforço: as subidas, que antes me custavam um preço alto no fôlego, ficaram mais fluídas. A cada sessão de exercícios de força, eu sentia mais potência na impulsão e menos desgaste nos quilômetros finais. Não posso deixar de lado também a importância do treino de força para a diminuição dos riscos de lesões.

Além da força máxima, acrescentei estabilidade, coordenação e CORE, estratégia que também fez diferença durante a preparação. Nas últimas semanas, introduzi isometrias com a técnica de overcoming isometric, em que se aplica força máxima contra uma resistência fixa e imóvel. O objetivo era estimular o recrutamento de unidades motoras de alto limiar sem gerar dano muscular significativo, preservando a qualidade da fase de polimento. A ciência mostra que esse tipo de estímulo melhora a eficiência neuromuscular e contribui para a economia de corrida. Como profissional, eu já conhecia esses mecanismos. Como atleta, senti na pele o que significa correr com mais eficiência. O corpo, enfim, começava a funcionar como uma engrenagem coesa.

Um detalhe importante: pouco mais de 60% dos meus treinos foram feitos em esteira. A correria do trabalho não me dava o “luxo” de escolher horários com luz natural ou ruas nem tão tranquilas assim. Encaixava as sessões entre um aluno e outro, muitas vezes já de noite. A esteira virou aliada. Sei que há quem não goste, mas, bem ajustada em inclinação e velocidade, ela entrega o estímulo necessário com controle total de carga. E, na minha realidade, foi o que me manteve consistente. A planilha não se importa com o piso, ela só quer ser cumprida. E ela foi milimetricamente cumprida.

Nos longões, testei diferentes estratégias de hidratação e reposição energética. Aqui eu tive o acompanhamento de uma nutricionista, que é maratonista, e uma de suas especialidades é o acompanhamento de corredores. A literatura esportiva recomenda ajustar a ingestão de carboidratos e eletrólitos conforme a duração e a intensidade do esforço. Ela me orientou do que fazer e como fazer não somente durante as corridas, algo que antes eu negligenciava, mas também ao longo dos dias. As coisas se encaixaram.

A três semanas da prova, programei a redução de volume. Era a fase do polimento, ou tapering, que estudos apontam melhorar o desempenho na prova. Atingi uma diminuição de 50% da quilometragem, mas mantive a intensidade. A sensação foi estranha: pernas inquietas, mente ansiosa. Confiei no meu próprio planejamento. Essa fase é muito negligenciada pelos corredores. Há um temor no senso comum que diminuir o volume de quilometragem irá “descondicionar” o atleta. Errado. Esse período é fundamental para que se chegue no dia da prova com a menor quantidade possível de fadiga residual.

Hoje, a maratona está diante de mim. A planilha me deu estrutura. O treino de força e o trabalho neuromuscular me deram eficiência. A nutrição esportiva e o descanso me deram a leveza que faltava. Cada escolha foi minha, com o respaldo da ciência que aplico diariamente na profissão. A teoria não correu por mim, mas guiou cada metro do caminho. E eu, que comecei com uma decisão qualquer e sendo sorteado, aprendi a respeitar o processo. Falta pouco para a prova. Suor e evidência, afinal, falam a mesma língua: a do movimento.

 

Este artigo é assinado por colunista convidado(a). As opiniões e informações apresentadas são de responsabilidade do(a) autor(a) e não representam, necessariamente, a posição editorial do Radar Fitness.