Nos siga e fale conosco

| Coluna

Mudar hábitos também é tratamento: o papel do profissional de saúde nessa jornada

06/08/2026

Por Gustavo Miranda

Quando pensamos no trabalho de um profissional de saúde, é natural imaginar consultas, exames e medicamentos. Mas uma parte importante do cuidado acontece em um território mais complexo: ajudar alguém a mudar comportamentos que foram construídos ao longo de anos.

Orientar uma pessoa a se alimentar melhor, praticar atividade física, dormir adequadamente ou abandonar o cigarro parece simples no papel. Na vida real, porém, cada hábito está inserido em uma rotina, uma história familiar, condições financeiras, preferências e experiências anteriores. Por isso, dizer apenas “você precisa emagrecer” ou “precisa fazer exercício” raramente é suficiente.

O primeiro papel do profissional é entender onde aquela pessoa está e até onde ela consegue ir naquele momento. Uma recomendação cientificamente perfeita, mas impossível de ser cumprida, tem pouco valor. Muitas vezes, uma mudança menor e sustentável produz mais resultado do que um plano excelente abandonado depois de poucas semanas.

Também precisamos substituir o julgamento pela investigação. Quando um paciente não consegue seguir determinada orientação, a pergunta mais útil talvez não seja “por que você não fez?”, mas “o que dificultou?”. Falta de tempo? Cansaço? Dor? Ansiedade? Ambiente familiar? Dificuldade financeira? Metas excessivamente ambiciosas? Identificar essas barreiras permite transformar uma recomendação genérica em uma estratégia individualizada.

Outro ponto fundamental é definir objetivos concretos. “Fazer mais exercício” é uma intenção. Caminhar 30 minutos, quatro vezes por semana, é uma meta que pode ser planejada e acompanhada. O mesmo vale para alimentação, sono e controle do peso. Metas realistas permitem perceber evolução e ajudam a construir confiança para avançar.

Nesse processo, o profissional de saúde também precisa reconhecer que recaídas fazem parte da mudança. Uma semana ruim não significa que todo o progresso foi perdido. Mais importante do que exigir perfeição é ajudar o paciente a entender o que aconteceu, ajustar a estratégia e retomar.

E talvez esteja aí uma das funções mais importantes de quem cuida: ajudar o paciente a perceber que ele é o principal agente da própria saúde. O profissional possui conhecimento técnico, pode orientar, acompanhar riscos e oferecer ferramentas. Mas as decisões que realmente transformam a saúde acontecem todos os dias, longe do consultório.

Orientar hábitos também é tratar e, em muitas situações, pode ser uma das intervenções mais importantes que temos para prevenir doenças e viver mais e melhor.

Este artigo é assinado por colunista convidado(a). As opiniões e informações apresentadas são de responsabilidade do(a) autor(a) e não representam, necessariamente, a posição editorial do Radar Fitness.