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Quando a busca pela saúde atrapalha a própria saúde

06/06/2026

Por Dr. Gustavo Miranda

Vivemos uma era em que informações sobre alimentação e exercício físico estão disponíveis em abundância. Paradoxalmente, nunca foi tão comum encontrar pessoas frustradas com as próprias tentativas de mudar o estilo de vida. E, muitas vezes, o problema está justamente no excesso.

Ao decidir emagrecer, melhorar exames ou ganhar condicionamento físico, algumas pessoas adotam estratégias extremamente restritivas. Cortam grupos alimentares inteiros, eliminam qualquer alimento considerado “fora da dieta”, treinam em excesso e tentam transformar a rotina da noite para o dia. O resultado inicial pode até parecer animador. Mas, na maioria das vezes, essa abordagem cobra um preço alto e pouco duradouro.

O organismo humano foi desenvolvido para lidar com adaptações graduais. Mudanças muito bruscas costumam gerar fadiga, fome excessiva, perda de prazer na alimentação e sensação constante de privação. Com o passar das semanas, a adesão diminui e surgem sintomas como cansaço e queda da produtividade.

Esse fenômeno ajuda a explicar por que tantas pessoas alternam períodos de grande controle com episódios de exagero alimentar. Na maioria das vezes, não se trata de falta de força de vontade.

Existe ainda outro problema. Quando a saúde passa a ser medida apenas pela capacidade de seguir regras rígidas, o processo deixa de ser sustentável. Convites sociais geram culpa, refeições em família viram fonte de ansiedade e qualquer deslize é interpretado como fracasso. Aos poucos, a pessoa deixa de construir hábitos saudáveis e passa a travar uma batalha permanente contra si mesma.

Na prática clínica, observo frequentemente que os melhores resultados não surgem dos planos mais agressivos, mas daqueles que conseguem encontrar equilíbrio. Pequenas mudanças, repetidas de forma consistente durante meses e anos, costumam produzir transformações muito mais duradouras do que grandes sacrifícios mantidos por poucas semanas.

Isso não significa abandonar metas ou aceitar hábitos prejudiciais. Podemos fazer uma analogia: a saúde é uma maratona, não uma corrida de cem metros. O objetivo não é encontrar a dieta perfeita para seguir por trinta dias, mas construir uma rotina que faça sentido por décadas.

Talvez uma das perguntas mais importantes diante de qualquer estratégia alimentar seja: “Eu conseguiria manter isso daqui a um ano?”. Se a resposta for não, vale a pena repensar.

O melhor plano é aquele que permite continuar avançando quando o entusiasmo inicial já passou. É a consistência, e não a restrição extrema, que costuma determinar quem realmente chega mais longe.

Este artigo é assinado por colunista convidado(a). As opiniões e informações apresentadas são de responsabilidade do(a) autor(a) e não representam, necessariamente, a posição editorial do Radar Fitness.